Trem da Morte faz mais uma vítima no Maranhão: até quando a Vale seguirá impune?

Casas e escolas rachadas pela trepidação da passagem do maior trem de cargas do mundo (no caso minério de ferro extraído na Amazônia). Direito de ir e vir de comunidades no Maranhão e no Pará cerceado em razão da operação – e do projeto de duplicação – da Estrada de Ferro Carajás, operada pela mineradora Vale. Mas não é somente isso: não bastassem os transtornos de um vizinho incômodo, o trem tão triste quanto o poema de Carlos Drummond de Andrade (veja ao final) leva minério e traz morte.

Segundo a rede Justiça nos Trilhos, houve em média oito atropelamentos por ano entre 2006 e 2013. O ano de 2007 registrou o maior número de casos: 23 pessoas morreram atropeladas por trens operados pela Vale no corredor de Carajás. Matéria da Agência Pública mostra que de 2010 a novembro de 2017, foram 39 mortes por atropelamentos ao longo de toda a ferrovia. Em 2015 foram sete mortes, o recorde. Mas em 2017 o número de óbitos se igualou ao recorde desse período.

A última vítima dessa tragédia anunciada e que se repete como um filme de terror foi Antônio Batista Farias, morador do povoado Centro dos Farias, em Buriticupu/MA. Sua morte, que não será tratada neste texto como acidente, aconteceu na última noite do dia 2 de maio.

Antonio, não por acaso, foi um dos personagens reais do documentário Mutirão da Vida: agroecologia como alternativa ao saque da mineração, produzido pela Justiça nos Trilhos que mostra a miséria que a Vale produz no município de Buriticupu, e como os moradores dessa e de outras regiões cortadas pela Vale nos dois estados se articulam em redes de trabalho e solidariedade para criar alternativas à devastação que a mineração lhes causa. Devastação essa silenciada pela mídia e pelos políticos locais e nacionais bancados pela empresa.

A resistência que o filme a seguir conta mostra como ela própria é feita: com trabalho e com a (re)afirmação da comunidade local, fortalecendo-a. No filme, Antônio conta que, ensinado pelo pai e pelo avô, “no trabalho dos antigos”, vê, esperançoso, no contato com a terra, a saída dessa situação:

Como diz Alaíde de Abreu durante o vídeo, “Essas comunidades todo dia se deparam com a grande quantidade de minério sendo transportado pela Vale e as propostas de emprego que não chegam. Enquanto isso, as comunidades buscam alternativa. A nossa proposta é, com uma pedagogia de solidariedade, trabalhos em mutirão, resgatando as sementes que aqui têm, enriquecendo a terra de uma forma sustentável, sem poluição, sem químicos, a gente trabalha as substâncias orgânicas, o adubo orgânico, pra produzir com mais qualidade. Então, a gente contrapõe à maneira do capitalismo de produzir, que devora, que devasta, que escraviza, que desumaniza. E o nosso mecanismo é a solidariedade, é a união, são os mutirões, a comunidade em si discutindo seus problemas e buscando alternativas juntas“.

Foi esse trabalho na vida de Antônio Farias que foi interrompido e cortado pelo trem do “desenvolvimento”, pelo trem da Vale. “É muito assustador, porque isso poderia ser evitado com a construção de travessias nos lugares apontados pelas comunidades. A morte de pessoas é o pior dano que a empresa causa. Mas existe a morte lenta, causada pelos entupimento dos igarapés, impedimento do livre trânsito, poluição do ar, das fontes hídricas, rachadura nas casas, a vigilância e a espionagem que são feitas contra as comunidades, o atropelamento de animais. Tudo isso vai minando a vida das pessoas“, desabafa Sislene Silva, da rede Justiça nos Trilhos.

Bebês, idosos, caminhoneiros, agricultores. São variados os tipos de pessoas que já tiveram suas vidas interrompidas pela Estrada de Ferro Carajás que, para a Vale, não pode parar. Quando as comunidades se revoltam com essa situação e se manifestam impedindo a circulação dos trens, seus agentes são processados. Em Marabá, um professor que participou de atos contra a companhia responde a processo. Nas comunidades, é extensa a lista de processados. É morrer sem poder nem ao menos gritar.

A seguir, algumas das manchetes de “acidentes” ocorridos ao longo da ferrovia, links para a matéria da Agência Pública e para a da rede Justiça nos Trilhos, o poema de Drummond, e o filme “Dragão de Ferro”, que também colhe relatos dos atingidos pela ferrovia da Vale.

  • Jornal Pequeno (São Luís, agosto de 2017): “Idoso morre atropelado por trem em Açailândia”/ O acidente ocorreu num ponto da Estrada de Ferro Carajás (EFC), próximo ao bairro Piquiá de Baixo, no município de Açailândia”;
  • Agência Carajás (janeiro de 2018): “Trem da Vale atropela caçamba no Maranhão. Duas pessoas morreram no local“/O acidente aconteceu na manhã desta quarta-feira a 20 quilômetros da sede do município de Cinelândia-MA;
  • CPT Nacional (agosto de 2014): “Trem da Vale mata mais um“;
  • Seminário Carajás 30 Anos (julho de 2016): “Perseguição: professor pode ser preso no Pará por ter protestado contra atentado da empresa em Mariana/MG
  • Xingu Vivo (janeiro de 2012): “Carajás: trens da Vale atropelam em média uma pessoa por mês”

Links:

Agência Pública:

Processados pela Vale

Justiça nos Trilhos:

Acidente envolvendo trem da Vale deixa dois feridos

 

O maior trem do mundo

Carlos Drummond de Andrade
(nascido em Itabira, MG – 1902-1987)

O maior trem do mundo
Leva minha terra
Para a Alemanha
Leva minha terra
Para o Canadá
Leva minha terra
Para o Japão

O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição
O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo
Meu coração itabirano

Lá vai o trem maior do mundo
Vai serpenteando, vai sumindo
E um dia, eu sei não voltará
Pois nem terra nem coração existem mais.

(Publicado em 1984 – Jornal “O Cometa Itabirano”)